JORNALISMO PROGRESSISTA · DIREITOS · DEMOCRACIA · CHECAGEMINDEPENDENTE 2026
← Voltar para a capaEDITORIAL / PUBLICAÇÃO
Economia / Análise

O Brasil já fez um chip quântico. O que falta para essa ciência virar futuro para todos?

A pesquisa pioneira de CBPF e Unicamp começou a dar frutos em 2022. Investimentos federais, um laboratório inaugurado em 2025 e novas articulações em 2026 mostram por que ciência pública é uma escolha de desenvolvimento — sem atalhos nem milagres.

Imagem relacionada à reportagem: O Brasil já fez um chip quântico. O que falta para essa ciência virar futuro para todos?
LADO COLETIVO ✳ DEBATEECONOMIA
IDEIAS EM MOVIMENTO2026

Foto: Fotografia real ilustrativa de chip supercondutor experimental com transmons, OJB Quantum / Wikimedia Commons. Não é imagem do protótipo brasileiro. · CC BY 4.0 · Enquadramento adaptado à capa e aos formatos sociais Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗

COMPARTILHE

Um circuito minúsculo, equipamentos que precisam operar perto do zero absoluto e uma pergunta enorme: o Brasil vai participar da construção das tecnologias do futuro ou vai pagar para importá-las prontas? A resposta começou a ser escrita dentro de laboratórios públicos, muito antes de os chips quânticos virarem assunto de manchete.

O Brasil já fabricou um protótipo de chip quântico supercondutor. Não é ficção científica nem uma promessa vaga. Em fevereiro de 2022, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, divulgou o desenvolvimento de um dispositivo em parceria com o Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp. Pesquisadores utilizaram estruturas de nióbio e alumínio para estudar unidades de informação quântica, os chamados qubits.

O detalhe fundamental é este: um protótipo de pesquisa não é um computador quântico brasileiro pronto para o mercado. Ainda há obstáculos de fabricação, controle, correção de erros e ampliação da capacidade de processamento. O feito real é dominar etapas de uma tecnologia complexa dentro do país — e reduzir a distância entre aprender ciência e depender integralmente do conhecimento alheio.

Não surgiu de um anúncio: surgiu de anos de trabalho

A equipe do CBPF e da Unicamp já desenvolvia a tecnologia antes da divulgação de 2022. O projeto contou com apoios como Faperj, Fapesp e Petrobras. É uma história que atravessa calendários eleitorais e que pertence, antes de tudo, aos pesquisadores, técnicos e estudantes envolvidos.

Em 2023, o CBPF anunciou R$ 19 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para a implantação do Laboratório de Tecnologias Quânticas, o QuantumTec. O investimento permitiu avançar na infraestrutura de fabricação e caracterização de dispositivos. Em 2024, o centro recebeu equipamentos de grande porte, entre eles sistemas associados à operação em temperaturas extremamente baixas.

Em junho de 2025, o QuantumTec foi inaugurado oficialmente, com a presença da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos. O espaço foi estruturado para pesquisas com chips supercondutores, sensores e comunicação quântica. O laboratório representa uma capacidade institucional maior; não deve ser confundido com a inauguração de uma fábrica comercial de processadores.

Também existe trabalho menos fotogênico, mas igualmente decisivo: em 2025, o CBPF destacou o desenvolvimento da linguagem Ket e de ferramentas associadas à programação quântica, com participação de pesquisadores ligados à UFSC. Hardware, software e formação de especialistas precisam caminhar juntos.

O que mudou em 2026

Neste ano, a agenda ganhou novas frentes. Em julho, a Unicamp e uma rede de instituições apresentaram ao governo federal uma proposta para consolidar Campinas como polo nacional de tecnologias quânticas. Estavam envolvidas universidades, centros de pesquisa, prefeitura e representantes do setor produtivo. É uma articulação relevante, mas ainda seria incorreto apresentar a proposta como um polo já totalmente implantado.

Em setembro, o CBPF divulgou novas oportunidades de formação e pesquisa em tecnologias quânticas e materiais avançados. Bolsas podem parecer pequenas ao lado de máquinas milionárias; sem gente qualificada, porém, os equipamentos viram patrimônio caro e subutilizado.

O país ainda tem muito a provar: quantos dispositivos conseguirá fabricar com regularidade? Qual será a qualidade das medições? Quantos profissionais permanecerão trabalhando aqui? Haverá pontes reais entre pesquisa e indústria nacional? Essas perguntas importam mais do que slogans sobre liderança mundial.

Para que isso pode servir ao Brasil?

Computação quântica explora propriedades da matéria para executar determinadas classes de cálculos de modo diferente dos computadores convencionais. No longo prazo, pesquisadores investigam aplicações em simulação de moléculas, novos materiais e problemas específicos de otimização. Sensores quânticos e comunicações seguras seguem trilhas tecnológicas relacionadas, mas distintas.

Não significa que um chip vá curar doenças amanhã, substituir todos os computadores ou resolver sozinho problemas econômicos. Essas aplicações exigem avanços científicos, sistemas confiáveis e avaliação de custos. A promessa séria não é um milagre imediato; é criar no Brasil a competência necessária para pesquisar, testar e, quando fizer sentido, produzir soluções próprias.

Há uma dimensão econômica e política nessa escolha. Quem domina apenas o consumo de tecnologia tende a pagar mais caro pelo acesso, licenciamento e manutenção. Quem investe em pesquisadores, laboratórios, fabricação e empresas de base tecnológica pode disputar empregos qualificados, propriedade intelectual e capacidade de decisão. Soberania tecnológica não é isolamento: é cooperar com outros países sem abrir mão de formar conhecimento aqui.

Nossa análise: ciência pública é uma decisão progressista

O Lado Coletivo defende que ciência não seja tratada como luxo de tempos de prosperidade. Um governo progressista tem a oportunidade de colocar universidades, institutos públicos, bolsas e política industrial no centro de um projeto de desenvolvimento que beneficie a população, em vez de restringir a inovação a quem pode comprá-la.

O governo federal de Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2023, manteve e apoiou iniciativas como a expansão do QuantumTec e a articulação de políticas para tecnologias estratégicas. Isso merece reconhecimento. Mas seria propaganda atribuir ao governo atual a criação do protótipo de 2022, que é anterior, ou apagar a colaboração de instituições estaduais, da Petrobras e de diferentes gestões. O argumento progressista mais forte é a continuidade do investimento público, não a apropriação partidária da descoberta.

Existe também uma cobrança indispensável: recursos públicos devem vir acompanhados de orçamento previsível, prestação de contas, avaliação científica e mecanismos para que o conhecimento gere oportunidades além dos grandes centros. É preciso formar jovens de escola pública, assegurar diversidade nas carreiras científicas e criar condições para que pesquisadores não sejam obrigados a deixar o país.

Um projeto nacional de ciência não se mede apenas pela fotografia de uma máquina recém-instalada. Mede-se pela produção de conhecimento, pela formação de gente, pela capacidade industrial e, no fim das contas, pela melhoria da vida coletiva.

O que vale guardar desta história

O chip brasileiro é real como experiência de laboratório; o desafio de transformar essa competência em tecnologia robusta continua aberto. O país demonstrou que tem pesquisadores capazes de participar da fronteira do conhecimento. Agora precisa demonstrar que tem disposição para sustentar essa pesquisa por décadas.

Quando a ciência pública avança, não é um favor de governo a cientistas. É o Brasil investindo na possibilidade de decidir parte do próprio futuro.

Fontes e documentos consultados

CBPF, anúncio do dispositivo produzido com a Unicamp em 22 de fevereiro de 2022 — Consultar documento ↗

CBPF, financiamento de R$ 19 milhões da Finep para o QuantumTec — Consultar documento ↗

CBPF, inauguração dos novos laboratórios em 2025 — Consultar documento ↗

CBPF, ferramentas de programação quântica e linguagem Ket em 2025 — Consultar documento ↗

Unicamp, proposta de polo nacional de tecnologias quânticas apresentada em julho de 2026 — Consultar documento ↗

CBPF, seleção de pesquisadores divulgada em setembro de 2026 — Consultar documento ↗

Nota editorial: esta reportagem combina dados verificados com uma seção de análise explicitamente identificada. A fotografia de capa é ilustrativa e mostra outro dispositivo quântico experimental, não o protótipo desenvolvido por CBPF e Unicamp.

✳
Análise · Publicação do Lado Coletivo.