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Trabalho / Análise

Sexta-feira da exaustão: por que a tecnologia avança, os lucros batem recordes, mas você continua trabalhando até adoecer?

Tecnologia, produtividade, inteligência artificial, vigilância por aplicativos e redução da jornada: quem fica com os ganhos da tecnologia?

Ônibus urbano em São Paulo, em registro de arquivo. A fotografia contextualiza o deslocamento cotidiano; não retrata pessoas entrevistadas para esta análise. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.
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Ônibus urbano em São Paulo, em registro de arquivo. A fotografia contextualiza o deslocamento cotidiano; não retrata pessoas entrevistadas para esta análise. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil. Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗

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Análise editorial da edição de 6 de novembro de 2026. Texto-base enviado à redação, com revisão factual e fontes indicadas. As propostas e interpretações expressam a posição do Lado Coletivo.

Quem fica com os ganhos da tecnologia?

A cena é familiar a quem entra em um vagão de trem ou ônibus às seis da tarde de uma sexta-feira: ali se enxerga o retrato fiel do capitalismo brasileiro no século XXI. São jovens de vinte e poucos anos cochilando em pé com a mochila nas costas, trabalhadoras de comércio e telemarketing com as pernas inchadas depois de seis dias seguidos de turno e idosos que já deveriam estar descansando, mas continuam na labuta porque o valor da aposentadoria não vence a fila do supermercado. O cansaço deixou de ser um estado passageiro de fim de semana; tornou-se uma marca recorrente da vida de quem trabalha.

Ao longo das últimas décadas, uma promessa acompanhou o avanço tecnológico. A expectativa era que a chegada dos computadores, da robótica e da automação aliviaria o esforço físico e mental da humanidade. A conta parecia lógica: se uma máquina ou um programa faz em duas horas o serviço que antes exigia dez pessoas trabalhando a semana inteira, todos poderiam trabalhar menos horas por dia, ganhando o mesmo salário e aproveitando a vida.

O futuro tecnológico chegou, mas o tempo livre não é distribuído automaticamente com ele. Caixas de autoatendimento, relatórios automatizados e análises de crédito por software podem reduzir tarefas; também podem ser usados para cortar equipes e aumentar metas. A escolha depende de quem controla a empresa e das condições negociadas com os trabalhadores. Não há uma relação inevitável entre cada máquina instalada e um emprego eliminado: estudo da OIT e do NASK, de 2025, estima que um em cada quatro empregos no mundo tem alguma exposição à IA generativa e aponta a transformação das tarefas como resultado mais provável do que a substituição completa.

O contraste com a rentabilidade aparece em um exemplo concreto: o Itaú registrou lucro recorrente gerencial recorde de R$ 12,6 bilhões no terceiro trimestre de 2026, segundo o balanço divulgado em 3 de novembro e a cobertura da Exame. É um resultado de uma instituição, não de todas as empresas, e não demonstra que a IA tenha causado esse lucro. Expõe, porém, uma pergunta política legítima: como a riqueza produzida se transforma em renda, descanso e proteção para quem trabalha?

Na teoria marxista, esse mecanismo nunca foi segredo. Sob o comando do capital, o investimento em máquinas é orientado pela busca de rentabilidade e pode baratear o custo da mão de obra e ampliar o tempo em que o empregado trabalha de graça para gerar lucro ao patrão. Quando a produtividade aumenta sem uma negociação sobre salários e tempo de trabalho, o ganho pode ser apropriado pelos donos da empresa. Essa é a disputa distributiva que a análise marxista coloca no centro do debate.

Pior do que produzir mais em menos tempo é não conseguir mais se desligar do serviço. O celular, que cabe no bolso da calça, derrubou os muros da fábrica e do escritório. A cobrança de metas pode chegar pelo grupo de WhatsApp no sábado à noite, e a gestão por algoritmos das plataformas acompanha a atividade do motorista ou do motociclista na rua. Metas, avaliações e critérios de distribuição de chamadas precisam ser transparentes e permitir contestação. A remuneração por tarefa pode pressionar o trabalhador a continuar conectado mesmo quando precisa parar.

Esse esgotamento atravessa gerações: jovens enfrentam insegurança no início da vida profissional; adultos disputam com o expediente o tempo de convivência com os filhos; trabalhadores mais velhos acumulam desgaste físico. Não se trata de diagnosticar toda uma geração. A relação entre jornadas extensas e adoecimento tem evidência: estimativas da OMS e da OIT publicadas em 2021 atribuíram cerca de 745 mil mortes no mundo, em 2016, a doenças cardíacas e AVC associados a jornadas de pelo menos 55 horas semanais. O dado é global e daquele ano, não uma contagem de mortes brasileiras em 2026.

Há uma conquista recente que precisa entrar nessa conta. O Congresso promulgou em 16 de outubro a Emenda Constitucional 141, com transição para duas folgas semanais e redução da jornada. Segundo o Senado, a primeira etapa começa após 60 dias e a redução para 40 horas se completa em 14 meses. Em 6 de novembro, a transição ainda não terminou. As 30 horas defendidas aqui são uma proposta editorial de avanço, não a jornada geral já estabelecida pela emenda.

Reverter esse quadro passa longe das palestras corporativas sobre "saúde mental" ou dos aplicativos de meditação oferecidos pelo departamento de recursos humanos. O cansaço do povo é um problema político e econômico. Se a tecnologia permite produzir mais riqueza com menos esforço, a única resposta justa é dividir esse ganho com quem trabalha: reduzir a jornada para 30 horas semanais sem redução de salário, garantir a implementação do fim da escala 6x1 e colocar a inovação tecnológica sob controle social. O direito à preguiça, ao lazer e ao convívio familiar não será concedido pela boa vontade dos patrões; será conquistado pela pressão organizada nas ruas e nos locais de trabalho.

Direto pro Zap — em 1 minuto

• A tecnologia pode reduzir tarefas; transformar isso em descanso depende da disputa por renda e jornada.

• A mudança da escala 6x1 foi promulgada em outubro e tem período de transição.

• As 30 horas sem redução salarial são uma proposta defendida nesta análise.

Documentos e fontes desta reportagem

Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

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Análise · Publicação do Lado Coletivo.