O custo da passagem não deveria decidir quem consegue votar: a experiência da Bahia
No segundo turno de 2026, ônibus e outros sistemas de transporte tiveram gratuidade definida por normas estaduais. A política revela a distância entre o direito formal de votar e as condições reais de chegar à urna.

Foto: Metrô de Salvador na estação Brotas, fotografia de arquivo, Luan / Wikimedia Commons. · CC BY-SA 3.0 BR · Enquadramento adaptado à capa e aos formatos sociais Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗
Para votar, não basta ter o título em dia. É preciso chegar ao local de votação. Em cidades grandes, bairros distantes e municípios onde o transporte intermunicipal pesa no orçamento doméstico, a passagem pode representar uma barreira real. A Bahia adotou gratuidade em sistemas de transporte no segundo turno das eleições de 2026, realizado em 25 de outubro.
O que o estado ofereceu
De acordo com comunicados da Secretaria de Infraestrutura, do governo estadual e do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia, o benefício abrangeu transporte rodoviário intermunicipal, metrô, sistema metropolitano, ferry-boat e lanchinhas, com regras específicas para cada modalidade. Parte da operação foi garantida das 18h de 24 de outubro até o fim de 25 de outubro. O benefício não significa que todo deslocamento privado estivesse incluído ou que qualquer passageiro pudesse viajar sem observar os procedimentos previstos.
A medida procurou reduzir obstáculos ao exercício do voto, especialmente para pessoas que moram longe do domicílio eleitoral. Autoridades também divulgaram canais de orientação e de denúncia em caso de descumprimento da gratuidade. No primeiro turno, dados informados pelo governo baiano registraram mais de 21 mil usuários do transporte intermunicipal gratuito e outros 75 mil beneficiados pelos sistemas metropolitano e de lanchinhas. Esses números não devem ser apresentados como balanço consolidado do segundo turno.
Por que transporte é assunto de democracia
Uma escolha só é plenamente livre quando existe condição material de exercê-la. A pessoa que depende do coletivo, trabalha longe ou precisa atravessar uma cidade para votar enfrenta um problema prático que não aparece no discurso abstrato sobre cidadania. A gratuidade tem custo público e deve ter regras claras, fiscalização e prestação de contas. Ainda assim, não faz sentido discutir participação política ignorando o dinheiro da passagem.
Nenhuma medida de transporte prova, por si só, alteração no resultado eleitoral, nem pode ser associada automaticamente à preferência por um candidato. O ponto verificável é outro: houve uma política para facilitar o deslocamento de eleitores.
O que merece ser medido depois
Quantas viagens foram realizadas? Qual foi o custo total? Que municípios tiveram maior procura? Houve reclamações sobre falta de ônibus ou acesso ao serviço? Esses dados ajudam a distinguir o anúncio político da entrega efetiva. O Lado Coletivo defende que políticas de mobilidade sejam avaliadas por transparência e pelo efeito sobre quem mais depende delas, sem propaganda partidária disfarçada de balanço técnico.
Fontes e documentos
Governo da Bahia, regras de gratuidade no segundo turno: https://www.ba.gov.br/comunicacao/transporte-gratuito-eleicoes
Secretaria de Infraestrutura, operação especial: https://www.ba.gov.br/infraestrutura/noticias/2026-10/12560/bahia-tera-transporte-gratuito-no-segundo-turno-das-eleicoes
TRE-BA, serviço ao eleitor: https://www.tre-ba.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/2o-turno-eleitorado-baiano-tera-transporte-gratuito-neste-domingo-25-10


