O povo americano começou a vencer o fascismo: Trump perdeu o Congresso
Democratas conquistam Câmara e Senado em uma derrota contundente para o trumpismo. A reação das urnas é real, mas a democracia ainda terá de ser defendida fora delas.

Donald Trump em retrato oficial de 2025. Foto: Daniel Torok/Casa Branca, domínio público. A imagem não retrata a eleição de 2026.
Uma derrota que não cabe no discurso de Trump
O voto não encerra sozinho uma experiência autoritária. Mas pode tirar dela a proteção institucional de que precisa para avançar. Na noite de 3 de novembro, milhões de americanos fizeram exatamente isso: deram ao Partido Democrata o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, segundo as projeções de vitória divulgadas pela Associated Press e pela Reuters nas primeiras horas desta quarta-feira, 4.
Donald Trump não era candidato. Ainda assim, esteve no centro de uma eleição que ele próprio ajudou a transformar em plebiscito sobre o seu governo. Em comícios, pediu aos eleitores que agissem como se seu nome estivesse na cédula. As urnas responderam de outra maneira. O que se pode afirmar com precisão é que o Partido Republicano perdeu as duas maiorias legislativas e que o presidente sofreu uma derrota política nacional. Não se trata de anunciar o fim do trumpismo, nem de confundir projeções jornalísticas com certificações estaduais definitivas.
O Lado Coletivo chama de autoritária a política que tenta reduzir os limites democráticos, transformar diferenças em inimigos e submeter instituições à vontade de um líder. A palavra fascismo, empregada nesta manchete como interpretação editorial da ameaça, não é uma classificação jurídica de todos os eleitores republicanos. E é justamente por levar a democracia a sério que a nossa posição precisa começar pelo que foi contado e confirmado.
O que virou nos estados que pareciam intocáveis
A virada atravessou lugares que tinham dado vitórias expressivas a Trump dois anos antes. No Texas, o democrata James Talarico conquistou uma cadeira no Senado; o estado também viu a derrota do governador republicano Greg Abbott. No Kansas, um democrata venceu uma disputa senatorial pela primeira vez em quase um século. Na Carolina do Sul, a candidatura escolhida pelo presidente não conseguiu impedir a mudança de partido da cadeira. Esses resultados, relatados pela Reuters, tornam insuficiente a explicação de que só centros urbanos progressistas rejeitaram a Casa Branca.
O movimento apareceu também em distritos suburbanos e em comunidades latinas. A Reuters apontou ganhos democratas em localidades de perfis econômicos e educacionais distintos. Houve candidatos com pautas moderadas e outros com agendas explicitamente progressistas. Isso não significa que milhões de pessoas tenham passado a concordar em tudo com o Partido Democrata. Significa que eleitores diferentes convergiram no desejo de impor limites ao governo.
Um caso particularmente simbólico ocorreu em Michigan: Abdul El-Sayed, democrata progressista, conquistou uma vaga no Senado e se tornou o primeiro muçulmano eleito para a Casa, conforme a Reuters. Sua vitória contrasta com campanhas que procuram retratar identidades religiosas e migratórias como ameaças políticas. A democracia também se mede pela possibilidade de pertencer, participar e vencer sem precisar esconder a própria história.
A conta do custo de vida, da guerra e da corrupção
Os eleitores não votaram apenas contra um estilo de comunicação. A alta do custo de vida, as tarifas comerciais, a guerra com o Irã e as suspeitas de conflito de interesses no governo aparecem entre os assuntos decisivos da campanha, de acordo com as reportagens da Reuters e da Associated Press. Uma administração pode tentar converter cada crise em espetáculo cultural, mas o preço da comida e a insegurança econômica continuam chegando à mesa.
Em pesquisa de boca de urna divulgada pela Reuters, cerca de metade dos entrevistados disse ter visto a eleição como oportunidade de repreender o presidente; sete em cada dez desejavam um Congresso mais disposto a impor freios e contrapesos. Trata-se de opinião dos participantes de uma pesquisa eleitoral, não da contagem oficial dos votos. Ela ajuda, porém, a explicar por que a disputa parlamentar foi percebida como um julgamento do poder presidencial.
Trump reconheceu o resultado em entrevista relatada pela Reuters e sinalizou disposição para negociar em alguns temas, ao mesmo tempo em que prometeu vetar projetos que considerasse inaceitáveis. Essa fala deve ser acompanhada pelos atos concretos. A aceitação pública de uma derrota é o mínimo exigido de qualquer governante em uma democracia, não um gesto extraordinário de generosidade.
Vencer uma eleição não é vencer definitivamente o autoritarismo
A partir da posse do novo Congresso, em janeiro de 2027, a oposição poderá abrir investigações, presidir comissões, questionar políticas e bloquear indicações que dependam do Senado. Isso muda o custo político de governar. Não entrega, por si só, o controle da Presidência, da Suprema Corte ou das agências federais aos democratas. Trump continuará na Casa Branca e terá instrumentos legais e políticos para disputar cada decisão.
O resultado também impõe uma obrigação aos vencedores: melhorar a vida material de quem votou por mudança. Combater a extrema direita não é apenas derrotar candidatos alinhados a ela. É enfrentar a precariedade, fortalecer instituições, recusar desinformação e construir segurança coletiva. Se a resposta às angústias econômicas se resumir a comemorações eleitorais, o ressentimento continuará disponível para novos demagogos.
Para o Brasil, haverá repercussões possíveis em comércio, imigração, cooperação climática e no debate sobre tarifas. Nenhuma dessas políticas muda automaticamente em 4 de novembro. O que mudou é a correlação de forças que poderá fiscalizá-las. Em tempos de ataques à ideia de que o poder precisa de limites, há algo profundamente significativo em ver a população impor um deles pelas urnas.
O povo americano deu um passo. A história não acabou. Mas Trump perdeu o Congresso — e isso, hoje, é uma notícia imensa.
Documentos e fontes desta reportagem
Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

