JORNALISMO PROGRESSISTA · DIREITOS · DEMOCRACIA · CHECAGEMINDEPENDENTE 2026
← Voltar para a capaEDITORIAL / PUBLICAÇÃO
Democracia / Reportagem

A eleição acabou. A violência política não: o país precisa enfrentar o ódio depois das urnas

Dados de organizações de direitos humanos e denúncias oficiais mostram ameaças e agressões que sobrevivem ao calendário eleitoral.

Imagem relacionada à reportagem: A eleição acabou. A violência política não: o país precisa enfrentar o ódio depois das urnas
LADO COLETIVO ✳ DEBATEDEMOCRACIA
IDEIAS EM MOVIMENTO2026

Imagem de arquivo de urna eletrônica. Foto ilustrativa; não representa local de violência.

COMPARTILHE

Quando a disputa eleitoral atravessa a porta de casa

A contagem de votos tem data para terminar. Uma ameaça recebida no telefone, não. Para quem foi perseguido por militância, identidade, mandato ou opinião política, o período posterior à eleição pode continuar marcado por medo. O problema fica menor nas manchetes quando acaba a campanha, mas não desaparece das ruas.

A Secretaria-Geral da Presidência informou, em balanço inicial de outubro, ter identificado 45 casos de violência e atentados com motivação política após a apuração eleitoral, envolvendo 47 vítimas. O comunicado menciona agressões físicas, ataques com armas e outras ocorrências que precisam de investigação individual. Esse balanço governamental não prova que todos os crimes tenham o mesmo autor ou motivação partidária.

Em pesquisa independente, Terra de Direitos e Justiça Global haviam registrado 354 episódios de violência política entre outubro de 2024 e agosto de 2026, média próxima de um a cada 44 horas. O estudo demonstra que a intimidação já integrava a vida política antes do dia de votar; não se deve somar esse conjunto ao balanço posterior sem examinar sobreposição e metodologia.

Mulheres pagam um preço desproporcional

No levantamento das organizações, mulheres foram vítimas de aproximadamente metade dos episódios, apesar de ocuparem uma parcela bem menor das cadeiras legislativas. Mulheres negras apareceram de forma especialmente vulnerável nas ocorrências repetidas. Não se trata apenas de hostilidade genérica: ameaças misóginas e racistas procuram expulsar pessoas específicas do debate público.

Uma democracia que tolera a intimidação como instrumento de campanha aceita, na prática, que algumas vozes entrem no debate pagando um preço que outras não pagam. O direito de discordar é inegociável. O suposto direito de perseguir adversários não existe.

Justiça, proteção e responsabilidade

O desafio agora é identificar responsáveis, proteger vítimas e dar transparência às apurações sem produzir acusações coletivas. Não basta dizer que “os dois lados se exaltaram” quando há ameaças documentadas; tampouco é legítimo atribuir cada agressão a uma organização política sem prova. Responsabilidade tem nome, conduta e processo.

A reconstrução da convivência democrática exige que partidos repudiem ameaças praticadas em seu nome, que serviços de denúncia funcionem e que autoridades investiguem sem seletividade. Violência política não é excesso de paixão. É uma tentativa de diminuir o número de pessoas que podem participar da vida pública com segurança.

Documentos e fontes desta reportagem

Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

✳
Reportagem · Publicação do Lado Coletivo.