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Cultura / Análise

Milton Santos aos 100: por que o endereço continua decidindo o tamanho dos direitos

O centenário do geógrafo oferece ferramentas para entender transporte, trabalho e desigualdade. Sua obra ajuda a perguntar quem organiza o território — e a serviço de quem.

Milton Santos em imagem de arquivo da TV Brasil. O centenário de nascimento foi em 3 de maio de 2026.
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Milton Santos em imagem de arquivo da TV Brasil. O centenário de nascimento foi em 3 de maio de 2026. Foto: TV Brasil. Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗

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Atualização em 5 de novembro: texto ampliado com contexto, explicação dos documentos e consequências das medidas. A data de publicação original foi preservada.

A cidade não oferece a mesma vida a todos

Ter um direito reconhecido não significa conseguir exercê-lo. Uma escola pode existir e estar longe demais; uma consulta pode ser marcada e exigir um deslocamento caro; uma oportunidade de trabalho pode depender de tempo e transporte que a pessoa não tem. Esses exemplos ajudam a introduzir uma pergunta presente na obra de Milton Santos: como a organização do espaço participa da produção da desigualdade?

Em 2026, o geógrafo completaria cem anos. Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, construiu uma interpretação do espaço como resultado de relações sociais, econômicas e políticas. A homenagem publicada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP destaca justamente essa contribuição: o território não pode ser compreendido como cenário neutro em que a sociedade simplesmente acontece.

A leitura é particularmente útil para um jornal que acompanha decisões públicas. Uma obra, uma linha de ônibus ou a localização de um serviço redistribuem possibilidades. Perguntar apenas quanto custaram não basta. É preciso investigar quem ganhou acesso, quem permaneceu distante e quais interesses orientaram a escolha.

Território usado: o mapa precisa incluir as relações de poder

No seminário do centenário organizado pela Câmara dos Deputados, a professora Mónica Arroyo retomou o conceito de território usado. A ideia, conforme o relato institucional do encontro, permite olhar a vida social como relação entre agentes que disputam o espaço: governos, empresas e movimentos, entre outros. As decisões se cruzam; nenhuma delas existe inteiramente separada das demais.

Aplicar essa perspectiva ao cotidiano muda as perguntas. Em vez de descrever um bairro apenas como “distante”, cabe perguntar distante de quê, para quem e por quais decisões. A distância até um hospital não tem o mesmo significado para quem dispõe de carro e para quem depende de várias conexões. O espaço físico é o mesmo; as condições de usá-lo são diferentes.

Esses exemplos são uma aplicação analítica, não depoimentos colhidos em um bairro específico. Demonstrar como o problema aparece em determinada cidade exige dados, trajetos, horários e escuta dos moradores. O pensamento de Milton Santos fornece perguntas e conceitos; não dispensa o trabalho de comprovar as respostas.

A economia vista de quem precisa sobreviver

A apresentação da FFLCH também destaca os estudos de Milton Santos sobre os circuitos da economia urbana. Sua abordagem permite observar atividades de grande concentração de capital e tecnologia em relação com formas de trabalho de menor escala. Não são universos que possam ser compreendidos isoladamente, como se a cidade formal existisse sem as relações que atravessam a sobrevivência cotidiana.

Para a cobertura jornalística, isso significa resistir à tentação de olhar apenas empresas de maior porte e indicadores agregados. É necessário examinar como renda, crédito, consumo e trabalho se conectam. O crescimento de uma atividade pode ampliar oportunidades para alguns e aumentar dependências para outros. O saldo não aparece integralmente em uma declaração empresarial nem em uma única estatística.

Também exige cuidado com a romantização da precariedade. Criatividade e capacidade de organização não tornam aceitável a falta de proteção. Reconhecer a produção cultural e política das periferias é diferente de transformar privação em identidade obrigatória. O direito a uma vida melhor não depende de preservar as condições que dificultam essa vida.

Cidadania exige condições materiais

O relato do seminário na Câmara relaciona a obra de Milton Santos a uma cidadania que precisa ser exercida independentemente do lugar onde a pessoa vive. Essa formulação ajuda a discutir o acesso a serviços sem reduzir o problema à existência formal de direitos. O território participa da capacidade de estudar, trabalhar, circular e receber atendimento.

A tarifa zero, por exemplo, pode ser examinada por esse critério: retirar a cobrança altera uma barreira econômica, mas o acesso também depende do trajeto e da frequência. Uma política fundiária pode reconhecer um território, enquanto a permanência nele exige serviços e condições de produção. São conexões com pautas atuais, não posições atribuídas ao geógrafo sobre medidas que surgiram depois de sua morte.

Essa distinção protege a própria obra. Usar um autor como autoridade para qualquer proposta contemporânea empobrece o debate. É mais produtivo mostrar como seus conceitos ajudam a analisar uma decisão e deixar claro onde começa a interpretação de quem escreve. Um pensamento crítico não precisa ser transformado em coleção de frases que encerram perguntas.

O centenário também revela o trabalho por trás das ideias

O registro da USP Imagens sobre a mostra realizada no Instituto de Estudos Brasileiros, em setembro de 2026, apresenta documentos de pesquisa, fotografias, a tese de doutorado e manuscritos de “A Natureza do Espaço”. Esse material lembra que a elaboração intelectual tem método, revisão e trabalho acumulado. Não é uma sequência de intuições prontas para circular em uma arte de rede social.

A trajetória de Milton Santos incluiu o exílio durante a ditadura e atuação acadêmica internacional. Seu reconhecimento não retira o caráter incômodo das perguntas que formulou. A crítica à organização do espaço alcança escolhas de governos, empresas e instituições; não fica restrita a condenar uma desigualdade abstrata, sem responsáveis nem mecanismos.

Ler Milton Santos no centenário pode começar com uma tarefa concreta: olhar o próprio município e perguntar quem tem condições de usá-lo plenamente. Onde estão os serviços, como se chega a eles, quem decidiu sua localização e quais grupos participaram? As respostas exigirão investigação. A contribuição do geógrafo está também em impedir que o endereço de uma pessoa seja tratado como explicação natural para os direitos que lhe faltam.

Documentos e fontes desta reportagem

Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

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Análise · Publicação do Lado Coletivo.