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Economia / Reportagem

Em Portugal, trabalhar já não garante uma casa: a crise que atravessa gerações

Dados oficiais revelam pressão sobre inquilinos e aumento do preço dos imóveis. Brasileiros que vivem no país também enfrentam os limites do mercado habitacional.

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Imagem de arquivo relacionada à mobilização por habitação em Portugal; não representa um protesto de 4/11/2026.

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A cidade tem casas. O trabalhador nem sempre consegue morar nelas

A ideia de que basta trabalhar e economizar para conseguir alugar uma casa tornou-se cada vez menos convincente para parte da população portuguesa. A alta dos preços não fica restrita aos anúncios de venda: chega às famílias que precisam renovar contratos, aos jovens que tentam sair da casa dos pais e aos imigrantes que procuram estabilidade.

Dados oficiais reunidos pelo portal DadosGov.pt mostram que, em 2025, 27,2% dos inquilinos com renda de mercado gastavam mais de 40% do rendimento disponível com habitação. Na União Europeia, a média comparável era de 18,5%. Esse indicador não descreve todos os moradores de Portugal; mostra o peso desproporcional para quem depende do mercado de arrendamento.

Preço de venda e aluguel sobem, oferta não acompanha

Nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, a mediana nacional dos imóveis vendidos alcançou 2.264 euros por metro quadrado, segundo indicadores do Instituto Nacional de Estatística compilados no portal de dados. Para novos contratos de aluguel, a mediana foi de 9,76 euros por metro quadrado. São medianas nacionais, que escondem diferenças profundas entre Lisboa, Porto, outras cidades e interior.

O mesmo painel registra 30.425 novas habitações concluídas em 2025, muito abaixo do pico de 130.247 unidades em 2002. Comparações entre anos distantes não explicam sozinhas a crise atual, mas evidenciam que oferta, planejamento urbano, renda e uso do solo precisam ser discutidos juntos.

A conta social de uma casa tratada apenas como ativo

Quando a habitação se converte principalmente em oportunidade de investimento, o interesse de quem precisa morar entra em conflito com o de quem espera valorização. A pergunta central é como aumentar oferta acessível, proteger inquilinos e ampliar políticas públicas sem vender soluções milagrosas.

Brasileiros em Portugal sentem essa pressão junto com portugueses e outras comunidades migrantes. É incorreto atribuir a crise a uma nacionalidade sem evidência sobre suas causas. Mercado imobiliário, salários, regras de aluguel, construção e habitação pública são variáveis mais relevantes do que culpar pessoas que também procuram um teto.

O direito à cidade começa antes de qualquer slogan: começa quando alguém consegue pagar pelo lugar onde dorme sem comprometer o restante da vida.

Documentos e fontes desta reportagem

Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

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Reportagem · Publicação do Lado Coletivo.