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Sociedade / Análise

Novembro Negro: por que o capitalismo brasileiro depende do racismo para manter salários no chão

Racismo estrutural, divisão da classe trabalhadora e desigualdade no acesso à renda, à saúde e à educação explicam quem paga a conta do lucro no país.

Coletiva de abertura do Novembro Negro, em Brasília, em 3 de novembro de 2026. Registro institucional, não retrata uma pesquisa sobre salários. Foto: Elio Rizzo/Ascom MDA.
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Coletiva de abertura do Novembro Negro, em Brasília, em 3 de novembro de 2026. Registro institucional, não retrata uma pesquisa sobre salários. Foto: Elio Rizzo/Ascom MDA. Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗

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Análise editorial da edição de 6 de novembro de 2026. Texto-base enviado à redação, com revisão factual e fontes indicadas. As propostas e interpretações expressam a posição do Lado Coletivo.

Racismo também se enfrenta na distribuição da renda

Todo mês de novembro, grandes bancos, mineradoras e redes varejistas trocam as fotos de suas campanhas publicitárias. Colocam jovens negros sorridentes em peças de marketing, promovem palestras internas sobre "diversidade" e assinam manifestos contra o preconceito nos jornais. Mas basta cruzar a porta giratória da agência ou olhar para a folha de pagamento dessas mesmas empresas para ver que a publicidade não prova que a estrutura real tenha mudado: na base da pirâmide, limpando o chão, dirigindo os caminhões de entrega, operando o telemarketing e trabalhando sem carteira assinada, a desigualdade racial precisa ser medida nos salários, na proteção social e nas possibilidades de promoção.

No Brasil, o racismo nunca foi apenas um defeito moral ou uma herança mal resolvida do passado colonial; ele é uma peça central do funcionamento econômico do capitalismo brasileiro. Quando a abolição formal da escravatura ocorreu sem reforma agrária, sem indenização e sem acesso à escola, a burguesia nacional criou um gigantesco exército de trabalhadores sem terra e sem direitos, forçados a aceitar qualquer pagamento para não morrer de fome.

Mais de um século depois, a desigualdade racial segue inscrita na renda. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, em 2024 a população ocupada branca recebia, em média, 65,9% mais do que a preta ou parda no conjunto dos trabalhos. Pelo cálculo inverso, pretos e pardos recebiam cerca de 39,7% menos. Essa é uma comparação de médias gerais: não mede pessoas na mesma função nem controla escolaridade ou jornada. O dado sustenta a denúncia da desigualdade, mas não autoriza dizer que a diferença é de 40% em funções equivalentes. Para as mulheres negras, discutir renda também exige considerar a distribuição do trabalho de cuidado e o acesso a serviços públicos.

Essa desigualdade econômica torna decisiva a disputa por serviços públicos nos bairros periféricos. O tempo de espera pelo ônibus, a distância de uma unidade de saúde e a oferta de creches interferem na possibilidade de estudar, trabalhar e descansar. Na perspectiva deste jornal, enfrentar o racismo exige garantir esses direitos e combater a criminalização da pobreza: segurança pública deve proteger vidas, com controle sobre a atuação do Estado e responsabilização por abusos.

Para os patrões, manter a classe trabalhadora dividida por linhas raciais sempre foi um excelente negócio. Enquanto houver milhões de trabalhadores negros empurrados para a hiperexploração e para o subemprego, o capital terá sempre uma reserva de mão de obra barata para chantagear o conjunto dos assalariados e frear conquistas sindicais.

Por isso, a luta antirracista consequente não cabe nos manuais corporativos de diversidade da Faria Lima. Combater o racismo de verdade no Brasil exige atacar as bases materiais que o sustentam: garantir que a transição legal para o fim da escala 6x1 chegue à juventude negra nos shoppings e mercados, valorizar o salário mínimo, realizar a reforma agrária e urbana, fortalecer o SUS e as universidades públicas e unificar a classe trabalhadora contra o sistema que lucra com a nossa divisão.

Direto pro Zap — em 1 minuto

• Os dados do IBGE mostram desigualdade racial persistente na renda.

• Médias gerais não são uma comparação de pessoas na mesma função.

• A análise defende serviços públicos, direitos e valorização do trabalho como parte da luta antirracista.

Documentos e fontes desta reportagem

Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.

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Análise · Publicação do Lado Coletivo.