URGENTE | Queda de Santiago Peña no Paraguai escancara a falência do modelo neoliberal e a submissão a Washington
Ex-economista do FMI, aliado de Trump e chamado de amigo por Flávio Bolsonaro anuncia renúncia após colapso do Ueno Bank, que atingiu milhões de paraguaios.

Santiago Peña em visita oficial a Taiwan, em 8 de maio de 2026. Foto: Gabinete da Presidência de Taiwan / Wikimedia Commons, CC BY 4.0. A imagem é de arquivo e não retrata o anúncio da renúncia. Fonte da imagem ↗ · Licença de uso ↗
O dinheiro desapareceu da rotina; a estabilidade desapareceu do discurso
A renúncia anunciada nesta quinta-feira, 5 de novembro, por Santiago Peña tem duas cenas que não cabem no mesmo retrato de sucesso econômico: de um lado, um presidente que se apresentava como gestor moderno, amigo dos investidores e parceiro de Washington; do outro, aposentados, trabalhadores e famílias tentando recuperar o acesso ao dinheiro guardado no Ueno Bank. O colapso da instituição financeira abalou o Paraguai e transformou uma crise bancária em crise de governo.
Peña comunicou sua decisão por vídeo, depois que a pressão popular chegou ao Congresso e até integrantes de seu Partido Colorado passaram a apoiar a destituição. Segundo Reuters e Associated Press, a intervenção no Ueno deixou aproximadamente três milhões de clientes sem acesso normal às contas. O presidente disse que se afastava em nome da estabilidade e da paz social. A formalização da saída e a sucessão seguem os trâmites institucionais do país.
A notícia não autoriza declarar encerrada a investigação nem afirmar que Peña foi condenado por qualquer irregularidade. Mas permite fazer uma pergunta política urgente: por que uma instituição que movimentava recursos de aposentadorias, serviços públicos e economias privadas conseguiu crescer tão rapidamente, apesar dos sinais de risco? O dinheiro comprometido não pertence a uma abstração chamada “mercado”. Tem donos, famílias e histórias de trabalho.
O banco próximo do poder e o dinheiro da previdência
O Ueno Bank deixou de ser uma pequena operação financeira e conquistou enorme presença no país. Durante o governo Peña, recebeu depósitos de diferentes órgãos e instituições públicas. A Associated Press informou que, antes da intervenção, a instituição mantinha aproximadamente US$ 800 milhões em recursos públicos, entre eles verbas relacionadas à previdência e à saúde. Esse volume torna impossível tratar a quebra como problema exclusivamente privado.
O presidente teve participação societária no grupo controlador do banco até 2025. A ligação empresarial anterior, isoladamente, não demonstra crime. Parlamentares paraguaios, porém, apontaram possíveis conflitos de interesses, utilização de recursos previdenciários e falhas de supervisão. O Banco Central interveio após identificar problemas de solvência e operações de crédito que exigem investigação. Executivos da instituição foram detidos, segundo a AP, e os procedimentos precisam respeitar o direito de defesa.
O alerta existia antes da quebra. Em setembro, a imprensa paraguaia noticiou que a participação do Ueno na carteira de investimentos do Instituto de Previdência Social havia saltado de cerca de 1% em 2023 para perto de 20% em 2025. Não é a prova automática de um desvio, mas é uma razão concreta para exigir explicações sobre concentração de risco, fiscalização e decisões de investimento.
A consequência social é imediata. Quem passou a vida trabalhando e contribuindo não pode ser informado de que suas economias estão presas enquanto políticos e banqueiros discutem responsabilidades. A restituição dos depósitos, a proteção dos recursos previdenciários e a investigação independente precisam ocupar o centro da resposta pública.
O “paraíso” das maquiladoras tem trabalhadores do outro lado da planilha
O Paraguai foi utilizado por setores empresariais brasileiros como exemplo de competitividade: menos impostos, incentivos à exportação e custos menores para produzir. Uma peça desse modelo é o regime de maquila, que oferece vantagens tributárias a empresas voltadas a mercados externos. O Ministério da Indústria e Comércio paraguaio divulga a existência de um tributo único de 1% para operações enquadradas nesse regime.
A política pode estimular investimentos e gerar empregos; isso não apaga o outro lado da história. O Instituto Nacional de Estatística registrou informalidade de 60,1% entre os ocupados em 2025. O indicador mais recente, do terceiro trimestre de 2026, ficou em aproximadamente 56,8%. Houve melhora, mas continua sendo uma proporção elevada de pessoas sem os vínculos formais e garantias associados ao trabalho protegido.
O relatório BTI 2026 também registra obstáculos à organização sindical, resistência de empregadores e dificuldades para fazer valer proteções legais. A discussão séria, portanto, não é sobre ser a favor ou contra a indústria. É sobre qual indústria se constrói e quem recebe os benefícios do crescimento. Exportar mais não equivale, automaticamente, a distribuir melhor a riqueza.
Para o trabalhador brasileiro frequentemente ameaçado com a ideia de que direitos precisam ser cortados para “competir com o Paraguai”, a pergunta é simples: se a redução de custos é a grande virtude do modelo, qual parte dessa economia chega ao salário, à previdência, à escola e ao atendimento de saúde de quem produz?
No campo, o agronegócio avança e a disputa pela terra permanece
A concentração de terras e os conflitos agrários paraguaios não começaram com Peña. São estruturas históricas, alimentadas por décadas de concentração de poder econômico e político. A expansão da soja e da pecuária convive com reivindicações de comunidades camponesas e indígenas que lutam pelo reconhecimento de territórios, pela segurança da posse e contra despejos.
A Relatoria Especial de Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais da Comissão Interamericana de Direitos Humanos registrou, em seu relatório referente a 2025, mobilizações indígenas contra expulsões e denúncias de ameaças territoriais relacionadas ao avanço do agronegócio. Também documentou conflitos que atingiram comunidades camponesas e famílias em situação de vulnerabilidade.
Esse quadro deve aparecer quando o Paraguai é apresentado como vitrine de crescimento. Uma safra expressiva pode coexistir com conflitos por terra e desigualdade. A produção de riqueza importa; sua distribuição e o respeito aos direitos territoriais também.
O homem do FMI, o Partido Colorado e o padrinho Horacio Cartes
Santiago Peña não surgiu da periferia da política. Economista, trabalhou no Fundo Monetário Internacional em Washington, dirigiu o Banco Central paraguaio e ocupou o Ministério da Fazenda. Depois integrou a direção do Banco Basa, ligado ao ex-presidente e empresário Horacio Cartes, figura influente no Partido Colorado. Foi Cartes quem impulsionou seu caminho partidário até o poder.
A máquina colorada governa o Paraguai há décadas e carrega a herança histórica de sua associação à ditadura de Alfredo Stroessner. A redemocratização mudou as instituições, mas não eliminou automaticamente a concentração de influência política e econômica. Peña chegou ao governo em 2023 apoiado nessa estrutura. Quando a crise bancária tornou a permanência custosa, setores do próprio partido retiraram apoio e passaram a defender seu afastamento.
A saída de um presidente não dissolve os grupos empresariais, as relações partidárias e os mecanismos de poder que o sustentaram. Essa é uma das razões pelas quais a mobilização popular e a fiscalização institucional não podem terminar no anúncio da renúncia.
Trumpismo em Assunção, elogios dos Bolsonaro no Brasil
Peña investiu na aproximação com Donald Trump. A Presidência paraguaia divulgou uma carta de 2025 em que o presidente norte-americano agradeceu o apoio recebido, inclusive o respaldo à indicação de Trump ao Nobel da Paz. Em fevereiro de 2026, os dois voltaram a dividir uma agenda internacional em Washington. São manifestações públicas de alinhamento político, não apenas fotografias protocolares.
A família Bolsonaro também demonstrou proximidade. Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro chamou Santiago Peña de “Querido Presidente e amigo” em uma manifestação pública registrada pela imprensa paraguaia. Eduardo Bolsonaro já o havia elogiado ao comparar a aproximação do Paraguai com os Estados Unidos à política do governo Lula.
Há ainda um cruzamento entre esse círculo político e a instituição que entrou em colapso. Segundo reportagem da Revista Fórum, o Ueno Bank apareceu como patrocinador de um evento conservador em Mar-a-Lago, propriedade de Trump, com participação de Eduardo Bolsonaro. O patrocínio, por si só, não demonstra envolvimento dos convidados nas irregularidades sob investigação. Mas é relevante para compreender como interesses econômicos e redes de articulação conservadora se aproximam.
É legítimo que países mantenham relações diplomáticas com os Estados Unidos. A questão política é outra: de que forma a aproximação com Washington se traduz em soberania, proteção social e ganhos concretos para a população? O apoio de uma potência estrangeira não substitui a confiança de quem mora, trabalha e deposita suas economias no país.
A queda de Peña não devolve, sozinha, o dinheiro ao povo
A crise do Paraguai oferece uma lição para o debate latino-americano. Não basta medir o êxito de um governo por indicadores apresentados a investidores. É preciso perguntar quem controla os recursos, quais interesses influenciam as decisões regulatórias e quais famílias ficam expostas quando o risco se materializa.
Não se pode atribuir todas as desigualdades paraguaias a uma única pessoa nem afirmar que uma falência bancária prova, por si só, a inviabilidade de todo um sistema econômico. Mas a combinação de vínculos entre políticos e bancos, recursos públicos concentrados, informalidade elevada e desgaste das instituições dá base a uma crítica profunda ao modelo que privilegia a rentabilidade e frequentemente exige que os trabalhadores absorvam os custos de suas crises.
O anúncio da renúncia é apenas uma etapa. A sociedade paraguaia ainda precisa saber como o Ueno recebeu tantos depósitos, quais alertas foram ignorados, quais autoridades falharam e como todos os poupadores serão ressarcidos. A responsabilização depende de provas e de Justiça, não de proteção partidária.
Para o Lado Coletivo, o ponto central é a defesa da soberania popular: o dinheiro da previdência, o salário e as economias de quem trabalha não podem funcionar como garantia de negócios privados sem controle público rigoroso. Mudanças duradouras exigem instituições capazes de enfrentar a concentração econômica e uma sociedade organizada para cobrar direitos. A queda de um governante pode abrir essa disputa. Não a resolve automaticamente.
Documentos e fontes desta reportagem
Texto autoral com apuração em documentos públicos. Os links permitem conferir os fatos apresentados.
- Reuters — renúncia de Peña e intervenção no Ueno Bank, 5/11/2026 ↗
- Associated Press — crise bancária, poupadores e resposta do governo, 5/11/2026 ↗
- Instituto Nacional de Estatística do Paraguai — informalidade em 2025 ↗
- Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai — regime de maquila ↗
- BTI 2026 — relatório sobre direitos sindicais no Paraguai ↗
- OEA / CIDH — conflitos territoriais e comunidades indígenas, relatório 2025 ↗
- ABC Color — concentração de depósitos do IPS no Ueno, setembro de 2026 ↗
- Reuters — perfil e trajetória de Santiago Peña, 2023 ↗
- Presidência do Paraguai — carta de Trump a Santiago Peña, 2025 ↗
- La Nación Paraguai — declaração pública de Flávio Bolsonaro, maio de 2026 ↗
- Revista Fórum — patrocínio do Ueno a evento em Mar-a-Lago, 5/11/2026 ↗
- Wikimedia Commons — fotografia real de Santiago Peña, maio de 2026 (CC BY 4.0) ↗


